terça-feira, 14 de outubro de 2014

A pecuária e o meio ambiente

DIÁRIO DA MANHÃ
CORONEL AVELAR LOPES DE VIVEIROS
Além de prefeito de Goianápolis, Jeová é meu amigo desde 2010 quando instalamos uma Companhia da Polícia Militar naquela cidade. Como agora estou instalado com o Comando ambiental no Parque Estadual Altamiro de Moura Pacheco, cuja maior parte está naquele município, fui visitá-lo. Tivemos uma agradável conversa que durou mais de hora. Mas por que estou contando aqui sobre a visita que fiz a um amigo? Explico a seguir.
Ao saber da minha nova função, Jeová emocionou-se ao revelar sua natureza conservacionista. Fez questão que eu visitasse o parque que recuperou na cidade em que governa, uma mata bem cuidada de cerca de dois alqueires repleto de árvores nativas. Daí, contou que, cerca de 3 a 4 anos atrás, aquela área fora destruída pelo fogo. Situação, aliás, que replicava ano após ano. Hoje não há incêndio e a mata viceja como moradia inclusive de alguns macacos. Mostrou-se particularmente feliz quando lhe perguntei como conseguiu tal milagre. A isto, respondeu de forma efusiva resumindo tudo numa frase que diz ter aprendido na lida da roça: “fazenda de viúva vira mata”.
Meu amigo e prefeito explicou o seguinte: quando um fazendeiro morre, a viúva invariavelmente fica solitária e sem forças. O gado permanece mas não há cuidado com a roça. O capim é roçado pelos bovinos. Daí, as arvores nativas crescem sendo ignorados pelo gado que só come capim. Gado não come pau, diz Jeová. Vem daí o ditado repetido por meu amigo de que fazenda de viúva, com o tempo, volta a virar mata.
Discorrido isto, o prefeito explicou que o capim vira uma massa seca e densa própria para o fogo. Não bastasse esta matéria tornar-se facilmente combustível, além de sufocar no período chuvoso as plantas nativas que não tem forças para crescer. Por este prisma, vaticinou meu amigo, em 20 anos o parque pode não existir. Expliquei a ele que não acredito nesta profecia vez que a Secretaria vem fazendo sua parte para controlar os incêndios e tornar o parque um ambiente agradável e regenerador para visitas. Jeová disse que homem não controla a natureza. Ele ajuda ou atrapalha, mas não controla. A natureza tem que ser controlada por si e, neste caso, melhor seria deixar o gado comer o capim nas chuvas e retirá-lo na seca até que as árvores replantadas superem o capim. Aí a mata estará protegida. Eu disse ao Jeová que falaria da nossa conversa neste espaço. Ele aprovou.
Há implicações danosas na presença do gado numa mata mas não há espaço para discorrer sobre isto aqui. Nem é o assunto que me interessa. Sei que os ambientalistas ficarão boquiabertos de ver este texto escrito por mim. Mas na semana passada falei justamente do meu entendimento de que precisamos ver no produtor rural um parceiro e não um inimigo a ser combatido. Em que pese as discussões que a visão do meu amigo poderia causar, esta conversa se presta ao propósito de confirmar minha visão. Além de meu amigo e prefeito, Jeová é um produtor. E sua vontade é cem por cento preservacionistas. Certamente que podemos ensinar algo para ele mas não tenho dúvidas que ele tem muito a nos ensinar. Em 4 anos sua administração recuperou uma área considerável a custos irrisórios. Sem qualquer ajuda. Pensemos no que poderia ser feito numa parceria em que os lados se unissem para alcançar um mesmo objetivo. 
(Coronel Avelar Lopes de Viveiros, comandante do policiamento ambiental de Goiás)
Fonte:http://www.dm.com.br/texto/193348-a-pecuaria-e-o-meio-ambiente

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